{"id":100,"date":"2011-08-11T16:09:26","date_gmt":"2011-08-11T19:09:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.languagetrainers.com.br\/blog\/?p=100"},"modified":"2014-04-16T12:43:12","modified_gmt":"2014-04-16T15:43:12","slug":"malandragem-para-manes-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/malandragem-para-manes-2\/","title":{"rendered":"Malandragem para man\u00e9s"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><a href=\"http:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/img_logo_br.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1454\" alt=\"img_logo_br\" src=\"http:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/img_logo_br.jpg\" width=\"286\" height=\"135\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: blue; font-size: medium;\"> <b><i> Parte II: Os Novos Malandros<\/i><\/b><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\"><i>&#8220;Mas o malandro para valer, n\u00e3o espalha,<br \/>\naposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.<br \/>\nDizem as m\u00e1s l\u00ednguas que ele at\u00e9 trabalha,<br \/>\nMora l\u00e1 longe chacoalha, no trem da central&#8221;<\/i><\/p>\n<p align=\"justify\">Chico Buarque &#8211; Homenagem ao Malandro<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Em janeiro de 2009, enquanto fazia um curso de f\u00e9rias de ver\u00e3o (ver\u00e3o no Brasil, inverno na Europa) na It\u00e1lia, a maior parte dos meus colegas de turma era norte-americana ou pelo menos parte norte-americana (uma nipo-americana e uma uruguaia h\u00e1 muito radicada nos EUA eram o que havia de mais ex\u00f3tico, depois de mim, claro). Todas as noites, estrangeiros de todas as turmas escola se reuniam para excursionar pelos bares da cidade praiana (e, logo, vazia na \u00e9poca) de Salerno. Poucos membros da turma de n\u00edvel avan\u00e7ado, minha turma, no entanto, frequentavam a vida noturna todos os dias. Com duas exce\u00e7\u00f5es: Angela e eu. Um dia enquanto combinava o trajeto da noite seguinte com pessoal de outra turma, Angela me questionou: como voc\u00ea consegue sair todas as noites e ainda fazer todas as tarefas, todos os dias? E voc\u00ea ainda tem aulas individuais a tarde&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">A resposta \u00e0 pergunta de minha cara Angela era elementar. Ela simplesmente n\u00e3o havia notado um certo padr\u00e3o l\u00f3gico, que logo a expliquei: <i>Angela, darlin\u2019, voc\u00ea n\u00e3o precisa fazer todos os exerc\u00edcios da tarefa. A professora faz corre\u00e7\u00e3o oral certo? Todos sentam sempre nos mesmos lugares certo? Ela sempre come\u00e7a a corre\u00e7\u00e3o sempre pela mesma pessoa, certo? Logo, eu conto a rodada toda e fa\u00e7o somente os que ca\u00edrem na minha vez<\/i>. Angela me desferiu um olhar de sincera admira\u00e7\u00e3o e chamou aquilo de intelig\u00eancia e criatividade. Ao que eu a corrigi: <i>\u201cthis is malandragem\u201d<\/i>. O que parecia um ato de extrema observa\u00e7\u00e3o para Angela, era algo natural para mim. Logo, ela tamb\u00e9m passou a aplicar a tal da malandragem. Embora n\u00e3o seja totalmente moral, meu ato, em momento algum pode ser considerado enganoso, desonesto ou prejudicial (exceto, talvez comigo mesmo). Em momento algum, eu considerei que realmente enganava a professora. Pois, eu, j\u00e1 professor na \u00e9poca, sabia que enganar o professor, embora sempre fa\u00e7a o aluno se sentir esperto, n\u00e3o faz a menor diferen\u00e7a para o docente. No caso da minha docente, sua aula continuava de acordo com o planejamento, e todos os seus alunos, at\u00e9 os culturalmente menos disciplinados, pareciam estar motivados e seguindo suas instru\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m n\u00e3o estava prejudicando a mim mesmo, uma vez que acreditava sinceramente que a carga de exerc\u00edcios era excessivamente grande, ainda mais para mim, que j\u00e1 havia estudado o idioma anteriormente, estava imerso em um ambiente no qual apenas ele era falado e ainda assistia a aulas individuais, onde podia facilmente eliminar d\u00favidas espec\u00edficas, no per\u00edodo da tarde. Logo, eu fazia sim a carga de exerc\u00edcios necess\u00e1ria. Necess\u00e1ria \u00e0s minhas peculiaridades e a situa\u00e7\u00e3o no qual estava inserido naquele momento. Talvez, eu tenha prejudicado Angela, que n\u00e3o assistia aulas individuais a tarde, mas isso \u00e9 outra hist\u00f3ria. Em nenhum momento, eu a obriguei, recomendei ou a aconselhei a seguir meus m\u00e9todos de estudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Enfim, tudo isso foi para dizer que a malandragem, esse pequeno contornar do problema por meio da criatividade, racioc\u00ednio ou l\u00e1bia \u00e9 algo comum a n\u00f3s brasileiros. Est\u00e1 embrenhando em nossa cultura, nossas atitudes, em nossa pr\u00f3pria vis\u00e3o de n\u00f3s mesmos. Nos \u00faltimos anos com a populariza\u00e7\u00e3o de uma interpreta\u00e7\u00e3o exagerada de Webber por parte da imprensa, formadores de opini\u00e3o e da classe m\u00e9dia, a malandragem e <i>a lei de Gerson<\/i>(assunto para o pr\u00f3ximo post) parecem ser os grandes culpados pela nossa desonestidade e subdesenvolvimento. O que para mim \u00e9 um grande exagero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Apesar da era do malandro de chap\u00e9u e terno branco ter chegado ao fim (e de agora o malandro precisar trabalhar e chacoalhar no trem da central) a malandragem ainda existe entre n\u00f3s. Mesmo n\u00e3o mais existindo mais em corpo, alma, terno branco e chap\u00e9u, vira e mexe, ela se manifesta, aparece em pequenos atos cotidianos, atos esse que, em S\u00e3o Paulo, chamamos de migu\u00e9. Dar um migu\u00e9 significa, portanto, fazer uma a\u00e7\u00e3o <i>\u00e0 malandra<\/i>. Acredito sim que podemos como um povo tirar proveito dos migu\u00e9s para promover o desenvolvimento. Afinal, ele nasce do mesmo lugar, e anda de m\u00e3os dadas, com a nossa capacidade de improviso (com a nossa bossa, nossa ginga) t\u00e3o admirada no futebol e na m\u00fasica. S\u00f3 falta, em sociedade, sabermos como adaptar essa caracter\u00edstica de forma ben\u00e9fica, como j\u00e1 fazemos na m\u00fasica e no futebol. Podemos at\u00e9 mesmo usar essas t\u00e9cnicas para combater a corrup\u00e7\u00e3o. Quem sabe, a solu\u00e7\u00e3o do problema n\u00e3o esteja em deixar de ser malandros, e sim em deixar de ser man\u00e9s, principalmente quando o assunto em quest\u00e3o for pol\u00edtica ou administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">A malandragem deu um tempo. Mas, ainda n\u00e3o morreu. Est\u00e1 <i>mocozada<\/i>. Cabe a n\u00f3s mant\u00ea-la viva e louv\u00e1-la como parte de nossa cultura e origem de nossa capacidade de improviso, nossa fluidez e nossa ginga. Cabe a n\u00f3s, ainda, evitar as deprava\u00e7\u00f5es da malandragem, evitar que ela se torne corrup\u00e7\u00e3o, golpe, estelionato, etc. E a melhor forma de fazer isso n\u00e3o \u00e9 se tornar man\u00e9 ou cintura dura, e sim nos tornarmos (ou continuarmos a ser) <i>malandros de responsa<\/i>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Parte II: Os Novos Malandros &nbsp; &#8220;Mas o malandro para valer, n\u00e3o espalha, aposentou a navalha, tem&#8230;","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-100","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=100"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1647,"href":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100\/revisions\/1647"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=100"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=100"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=100"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}