{"id":16,"date":"2011-05-20T08:42:50","date_gmt":"2011-05-20T11:42:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.languagetrainers.com.br\/blog\/?p=16"},"modified":"2014-04-16T13:01:33","modified_gmt":"2014-04-16T16:01:33","slug":"16","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/16\/","title":{"rendered":"Wittgeinstein, Thelonius, Borges e eu em uma mesa de bar"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><a href=\"http:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/img_logo_br.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1454\" alt=\"img_logo_br\" src=\"http:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/img_logo_br.jpg\" width=\"286\" height=\"135\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cOs limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo\u201d. A famosa frase do pai da filosofia da linguagem, Ludwig Wittgenstein, expressa de maneira concisa, e, ainda assim, pomposa, a influ\u00eancia e o papel da linguagem em tudo aquilo que \u00e9 ou rodeia aquilo que \u00e9 humano. Mais do que representar, descrever, significar ou mapear o mundo (tudo o que existe, na concep\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Wittegenstein), nossa linguagem intermedia nossa rela\u00e7\u00e3o com tudo ao nosso redor. Com tudo, e com todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O interm\u00e9dio da linguagem em nossa rela\u00e7\u00e3o com \u201ctodos\u201d \u00e9 muito mais simples de ser percebido. Tal interm\u00e9dio \u00e9 simples de ser percebido porque pedimos, reclamamos, brigamos, odiamos e apaixonamos tendo o idioma como intermedi\u00e1rio. Mesmo na aus\u00eancia desse, o que dificulta, e muito, as coisas, ainda somos capazes de todas essas coisas. A possibilidade de erro aumenta, \u00e9 claro, a especificidade diminui, mas podemos pedir com o olhar, reclamar com expira\u00e7\u00f5es, brigar com arcares de sobrancelha, odiar com um virar de cabe\u00e7a e apaixonar com um sorriso tolo. Mas n\u00e3o se engane, ainda que desprovidos de verbos e sujeitos, tais atos s\u00e3o linguagem pura. Ou melhor, linguagem em alguns de seus estados mais puros. As sinapses que come\u00e7ar\u00e3o a saltitar e a correr pelo c\u00e9rebro daquela (ou daquele) a quem for direcionada o sorriso tolo s\u00e3o as mesmas que correriam e saltitariam ao ouvir a frase de amor. A diferen\u00e7a s\u00f3 aparecer\u00e1 na sa\u00edda do t\u00fanel do centro de fala, de onde as saltitantes e despreocupadas sinapses ganhar\u00e3o compasso, melodia, ritmo e letra: \u201cje t\u2019aime; ich liebe dich, I love you ou eu amo voc\u00ea&#8221;. Logo, n\u00e3o importa se o seu sorriso tolo, ap\u00f3s atravessar o centro de fala, soar\u00e1 como um can-can, uma valsa, um jazz ou um samba, isso n\u00e3o mudar\u00e1 o fato de que ele ser\u00e1 um ato rom\u00e2ntico. Um ato de linguagem rom\u00e2ntico. E tolo, \u00e9 claro, porque se n\u00e3o fosse tolo, n\u00e3o seria rom\u00e2ntico.<\/p>\n<p align=\"justify\">A linguagem, contudo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 m\u00fasica. Pois, ela tamb\u00e9m intermedia nossa rela\u00e7\u00e3o com o \u201ctudo\u201d. \u00c9 ela que nos permite, reconhecer, classificar, enfim, localizar o que recebemos de fora, dentro de nossas cabe\u00e7as. Nesse caso, a linguagem parece mais um mapa. Um mapa especial. Semelhante ao mapa de Borges. O mapa de um imp\u00e9rio t\u00e3o grande quanto o pr\u00f3prio imp\u00e9rio, de t\u00e3o detalhado. Logo, in\u00fatil, ao ser imposs\u00edvel de ser manuseado e consultado. Esse imp\u00e9rio, e esse conto, \u00e9 claro antecedem o google maps e os GPS. Pois, assim como o Google Maps a linguagem n\u00e3o precisa de m\u00e3os para dobra-la, abri-la e vira-la. Por\u00e9m, ao contr\u00e1rio do google maps, a linguagem j\u00e1 est\u00e1 em nossas cabe\u00e7as, n\u00e3o sendo limitadas pelos olhos para aos poucos l\u00e1 adentrar. E, ainda ao contr\u00e1rio do Google Maps, a linguagem n\u00e3o nos guia apenas na busca do onde, mas do quando, do por qu\u00ea e do quem. Ou seja, a linguagem n\u00e3o \u00e9 apenas um mapa do espa\u00e7o, mas tamb\u00e9m, do tempo, do comportamento, da cultura, dos sentimentos. \u00c9 um mapa da somat\u00f3ria das realidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Por\u00e9m, a linguagem compartilha com os mapas a fraqueza de ser tra\u00e7ada. Tra\u00e7ada com as cores e linhas de um idioma. Somente os falantes de alem\u00e3o s\u00e3o capazes de delimitar a <em>Schadenfreude<\/em> em seus sentimentos, somente os italianos tem uma indica\u00e7\u00e3o para <em>permalosa<\/em> na regi\u00e3o do comportamento e, somente os falantes de portugu\u00eas determinam com precis\u00e3o (tanto quanto o poss\u00edvel, ver texto abaixo) o curso da <em>saudade<\/em>.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nesse ponto, justamente, est\u00e1 o prazer de se aprender um outro idioma. Aumentar a legenda de nosso mapa, ser capaz de apontar e indicar locais diferentes ou com maior precis\u00e3o. Aprendemos outros idiomas, mesmo com a possibilidade de se sobreviver com uma linguagem universal, porque a m\u00fasica s\u00f3 \u00e9 realmente capaz de fazer brigar, reclamar, odiar e apaixonar quando assume a forma de can-can, valsa, jazz ou samba. Aprendemos outros idiomas, enfim, porque uma vitrola n\u00e3o vive de apenas um ritmo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cOs limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo\u201d. 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