{"id":30,"date":"2011-05-27T08:58:21","date_gmt":"2011-05-27T11:58:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.languagetrainers.com.br\/blog\/?p=30"},"modified":"2014-04-16T13:00:02","modified_gmt":"2014-04-16T16:00:02","slug":"meu-pai-de-tecnico-eu-de-comentarista-e-camus-de-goleiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/meu-pai-de-tecnico-eu-de-comentarista-e-camus-de-goleiro\/","title":{"rendered":"Meu pai de t\u00e9cnico, eu de comentarista e Camus de goleiro"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><a href=\"http:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/img_logo_br.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1454\" alt=\"img_logo_br\" src=\"http:\/\/www.languagetrainersbrasil.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/img_logo_br.jpg\" width=\"286\" height=\"135\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\"><b>Albert Camus<\/b> era franc\u00eas, foi fil\u00f3sofo, autor e jornalista. Meu pai, <b>Ot\u00e1vio (ou Tavi\u00e3o Preto)<\/b>, \u00e9 brasileiro, foi vendendor porta-a-porta e oper\u00e1rio. <b>Camus<\/b> foi goleiro, meu pai lateral-direito e t\u00e9cnico. <b>Camus<\/b> foi um importante intelectual, meu pai mal tem ensino fundamental. Contudo, existe ao menos uma coisa em comum entre os dois: ambos clamam ter aprendido todas as coisas realmente importantes sobre a vida por meio do futebol. Nada me tira da cabe\u00e7a, todavia, que seriam duas coisas, conhecesse meu pai o niilismo. Mas, esse n\u00e3o \u00e9 nada importante neste post, ao contr\u00e1rio do futebol.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">O futebol que \u00e9 apenas um esporte para uns, 20 homens correndo atr\u00e1s de uma bola (os goleiros n\u00e3o correm atr\u00e1s da bola, pelo menos n\u00e3o em circunst\u00e2ncias normais), para outros \u00e9 paix\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o, filosofia de vida e movimentador de bilh\u00f5es. Essas e muitas outras coisas a respeito do futebol fazem-no mais do que um jogo. O fato de <b>Camus<\/b> ter atribu\u00eddo tamanha import\u00e2ncia ao jogo bret\u00e3o em sua forma\u00e7\u00e3o mostra que o esporte n\u00e3o \u00e9 objeto de devo\u00e7\u00e3o apenas das massas menos cultas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Ora, mesmo sendo t\u00e3o importante, o futebol teria alguma coisa a ver com a l\u00edngua portuguesa? Claro! Pense bem nas semelhan\u00e7as: os dois vieram da Europa, cheios de erudi\u00e7\u00e3o e cerim\u00f4nia, e foram, por n\u00f3s, imbu\u00eddos de ginga, gra\u00e7a infantil e malandragem. Enfim, fizemos com que ambos &#8220;amolecessem a cintura&#8221;. O esporte de cavalheiros apreciado pelo intelectual <b>Camus<\/b>, em nossas terras, se tornou o jogo de moleque adorado pelo oper\u00e1rio <b>Ot\u00e1vio<\/b>. De maneira semelhante, a \u00faltima flor do l\u00e1cio de <b>Fernando Pessoa<\/b>, ao ser plantada em nosso solo, teve suas p\u00e9talas mitigadas em v\u00e1rias cores pela mistura com as esp\u00e9cies nativas cultivadas por <b>M\u00e1rio de Andrade<\/b>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o h\u00e1 nada de ufan\u00edstico em minha constata\u00e7\u00e3o. Que, diga-se de passagem, n\u00e3o \u00e9 minha. Na verdade, foi-me trazida pelo contato com estrangeiros. Quando estava na Academia Italiana de Salerno, alguns de meus amigos e professores estrangeiros, com muito mais milhagens do que eu, me diziam que havia uma grande diferen\u00e7a entre o portugu\u00eas de Portugal e aquele que eu (raramente ali, \u00e9 claro) falava. Que o portugu\u00eas que eu falava tinha um <i>&#8220;eu-n\u00e3o-sei-o-qu\u00ea&#8221;<\/i> de mais bonito, como se fosse mais&#8230; <i>musical<\/i>. Foi exatamente esse o adjetivo que <b>David Bowie<\/b> aplicou ao ouvir as vers\u00f5es de <b>Seu Jorge<\/b> para suas can\u00e7\u00f5es. Esse \u00e9 o mesmo argumento dado por <b>Esperanza Spalding<\/b> para explicar seu fasc\u00ednio pela bossa nova.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Met\u00e1fora semelhante \u00e9 utilizada pelos jornalistas esportivos estrangeiros para descrever nosso futebol. Por\u00e9m, ao inv\u00e9s da m\u00fasica, fazem uso da figura da dan\u00e7a, chamando nossos jogadores de <i>Jogadores Samba <\/i> (<i>Samba Players<\/i>) em \u00f3bvia alus\u00e3o a mais difundida de nossas dan\u00e7as t\u00edpicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o preciso dizer aqui que m\u00fasica e dan\u00e7a est\u00e3o intimamente ligadas. Por\u00e9m, a dan\u00e7a do jogo est\u00e1 em disritmia com a m\u00fasica da linguagem. Pois, quando falamos de futebol sempre damos prefer\u00eancia a voc\u00e1bulos e met\u00e1foras oriundas da guerra. \u00c9 claro, existem aquelas vindas da m\u00fasica (<i>Maestro<\/i>), mas s\u00e3o poucas, poucas a ponto de serem consideradas exce\u00e7\u00f5es, comparadas as met\u00e1foras e elogios b\u00e9licos: o desempenho de um time na temporada \u00e9 chamado de <i>campanha<\/i>, o centro-avante eficiente \u00e9 <i>artilheiro<\/i> ou <i>matador<\/i>, o volante \u00e9 o <i>c\u00e3o de guarda<\/i>, o zagueiro, o <i>xerife<\/i>, jogos dram\u00e1ticos e decisivos s\u00e3o chamados de <i>batalha do X ou do Y<\/i>, um time devotado \u00e9 um <i>time guerreiro<\/i> e at\u00e9 mesmo os dribladores, virtuosos passistas por excel\u00eancia, <i>demolem<\/i> a defesa advers\u00e1ria. A lista poderia seguir por 116 anos&#8230;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Por que, ent\u00e3o, usamos esses termos? Por que, se prezamos tanto a est\u00e9tica de nossa l\u00edngua e de nosso jogo, n\u00e3o conseguimos perserva-la quando os unimos? Alguns podem tentar responder dizendo que isso se deve ao futebol moderno que produz (e valoriza) mais <i>xerifes<\/i> que <i>maestros<\/i>. Outros podem dizer que tais termos s\u00e3o um ato falho freudiano coletivo deixando escapar o que todos n\u00f3s, no fundo, sabemos: os universit\u00e1rios de Cambridge criaram uma f\u00f3rmula para sublimar o instinto guerreiro e a sede de gl\u00f3ria humana. Outros, talvez, possam arrumar uma terceira explica\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o preciso. Sou partid\u00e1rio da segunda. Acredito que a mesma for\u00e7a que livre produziu <b>\u00c1quiles<\/b>, sublimada produziu <b>Pel\u00e9<\/b>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\">Somente a Inglaterra, com todo o seu cerimonial e requinte, seria capaz de sublimar em jogo o instinto guerreiro humano. E o Brasil? O Brasil \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o de 180 milh\u00f5es de <i>Sun Tzus<\/i>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Albert Camus era franc\u00eas, foi fil\u00f3sofo, autor e jornalista. 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