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Brothers & Sisters

(Antes de iniciar o post propriamente dito devo introduzir aqui um pequeno preâmbulo. Diante dos eventos ocorridos no Big Brother Brasil durante a madrugada de sábado para domingo, discutir a terminologia usada pela produção/participantes do programa parece inócuo. As palavras parecem coisas pequenas e fugazes diante de tamanha complexidade. Porém, esse é o ofício deste blog. Muitos outros já trataram especificamente a respeito do ocorrido com mais ou menos habilidade. Seguem alguns links de artigos interessantes analisando a questão por diversos aspectos e lados: Tabnarede, R7 (Record), Ego (Globo).

O BBB (Big Brother Brasil) é a singela alcunha da versão brasileira do reality show criado pela rede de TV holandesa Endemol que consiste em trancar alguns comuns… bom, você deve saber como isso funciona. Há alguns anos atrás, o Big Brother foi uma coqueluche e um sucesso em todo o mundo (alguns analistas de mídia sugerem que o número de países a adotar o Big Brother foi maior do que o número de países a adotar uma constituição). Porém, essa epidemia (na verdade, pandemia) parece já ter passado em todo o mundo. Com exceção, é claro, do Brasil. Costumamos a dizer por essas bandas tropicais que em nenhum outro lugar do mundo o Big Brother foi tão bem sucedido.

As edições brasileiras, rigorosamente anuais, ocupam praticamente todos os noticiários, rodas de discussão (e agora, redes sociais) das férias de verão. O BBB é um programa amado por todos, já que aqueles que não o amam, amam odiá-lo, falar mal dele, usá-lo como evidência para a decadência social, cultural, ética, etc.

Como é impossível escapar, ao menos ao assunto BBB, dedicarei-lhe este texto. Como este é um blog de linguagem, analisarei brevemente um dos termos do vocabulário do programa. Sendo o apresentador do programa o jornalista/cronista/escritor Pedro Bial, um homem conhecido pela sua vertente poética de um apolíneo quase caricato, é muito difícil acreditar que ele (e/ou sua vertente apolínea) não tenha exercido poderosa influência sobre a terminologia utilizada no programa (e, consequentemente, nos blogs, nos programas vespertinos, nas análises de mídia, nas mesas de bar, nas redes sociais…).

Na tentativa de gerar uma identificação ainda maior entre público e participante (não seria essa a maior força de um reality show?), a produção do programa passou a usar o termo brother para se referir aos participantes do programa do sexo masculino e sister para as participantes do sexo feminino. Aparentemente, tal denominação seria naturalmente derivada do nome do programa. Porém, tal derivação não é tão lógica como parece.

Como todos sabem, a rede holandesa Endemol retirou o nome Big Brother da obra “1984″ de George Orwell (o problema é que poucas pessoas leram, ou ao menos assistiram o filme, “1984″…). Nessa obra, Orwell descreve uma Inglaterra fascista e isolada do restante do mundo, onde os cidadãos são vigiados o tempo todo e todas as informações que chegam até eles são controladas (pelo Ministério da Informação). Além disso, esse estado fascista futurista inglês controla até mesmo a língua, alterando a língua inglesa para uma forma mais segura, (à prova de ideais subversivos) denominada novalíngua (qualquer semelhança com estaleca, brother, sister…não é mera coincidência). O chefe de tal estado fascista, que nunca é visto fora das telas, o que sugere que seja uma “ficção”, é conhecido como Big Brother (O Grande Irmão). Figura bondosa e controladora ao mesmo tempo, o Grande Irmão vigia e reprime para o próprio bem de seu irmão menor: o povo. (Qualquer semelhança com a figura do “Pai dos Pobres” tão querida no imaginário brasileiro é realmente mera coincidência…).

Logo, na obra de Orwell, o Grande Irmão são aqueles que observam os cidadãos. É o conjunto de funcionários do governo fascista que observa os monitores das câmeras que vigiam os cidadãos, que, seguindo a lógica da analogia do próprio programa, seriam os telespectadores. Nós, e não os participantes do programa, seriamos os verdadeiros brothers .

Porém, em vista da impossibilidade dos telespectadores de interferir prontamente nos acontecimentos de domingo (ao contrário, do governo fascista de Orwell), da pressa da emissora de TV em tentar retirar o vídeo do caso da rede, do tratamento dado pela mesma ao caso e do modo como o apresentador Pedro Bial noticiou e se referiu ao mesmo, o telespectador parece estar tão longe quanto os participantes de ser o “big brother”, e, talvez, a analogia ao Big Brother de Orwell seja muito mais precisa do que se pensava…

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Ai se eu te pego

Parte 2: …. de novo…

A seguir os cinco motivos pelos quais o hit “Ai se eu te pego” tende a não ser usado para o ensino da língua portuguesa – mesmo com a crescente popularidade mundial de ambos. Caso não tenha lido a primeira parte deste artigo, clique aqui.

1-) Confusão pronominal: Assim você me mata/ Ah se eu te pego… “Você” é um pronome de tratamento equivalente a terceira pessoa. “Te” por sua vez é o pronome do caso oblíquo da segunda pessoa. Sim, está errado. A forma correta seria: Assim você me mata/ Ah se a pego… ou Assim tu me matas / Ah se eu te pego. Claro, no português falado, nós, brasileiros (que segundo Pina, minha professora de italiano, fazemos uma bagunça com os pronomes) fazemos isso o tempo todo. Naturalmente (principalmente, aqui pelas bandas de Sampa…). Porém, como diz aquele velho axioma pedagógico: fale como eu ensino, não como eu falo.

2-) Balada? Que isso?: Como sempre respondem os fãs quando questionados a respeito da qualidade poética da canção de Teló, a canção é para dançar, curtir, enfim, ouvir na balada (como a própria letra deixa claro: “Sábado na balada…”). Infelizmente, não pega bem para professores admitir que possui uma vida noturna. “Ah! Nada a ver”, espernearão alunos mais maduros, moderninhos ou compreensivos. Porém, nem todos são como vocês. Quando eu ministrava aulas em uma escola estadual, apareci uma vez em uma foto de canto em um jornal que divulga baladas aqui em minha cidade (sempre as mesmas, porque a cidade é pequena, então, não existem tantas baladas assim) e ouvi durante três meses ou mais comentários do tipo: “Aí, professor baladeiro!”; “Só no agito, hein profi?”. Depois desses eventos, evitei a cobertura de festas locais a todo o custo e não admitia sair de casa depois das dezoito horas nem na presença do meu advogado!

3-) Ai caso a pegasse: O subjuntivo é de longe o modo verbal mais complexo da língua portuguesa. Tanto que a maioria dos brasileiros não o utiliza normalmente (e nem sabe utilizá-lo), imagine, então, as dificuldades para um estrangeiro. Para virar hit também nas paradas didáticas o refrão bem que poderia conter um subjuntivo, assim quem sabe esse colaria com a mesma facilidade da canção.

4-) Interjeição: O colante refrão pode não ter o modo subjuntivo, mas tem uma interjeição. Mas, há de se convir que interjeições não são o conteúdo mais interessante a se tratar em um curso de línguas. “Oh, o que quer dizer “Ai”?; “Ah… é…. ah!”; “Ah, entendi!”.

5-) Pressão dos pares: Não é bem visto pelos companheiros de classe. Mesmo com todos os conceitos revolucionários pedagógicos, técnicas neolinguísticas e outros, a docência pressupõe uma certa hierarquia intelectual (pelo menos, no que se refere ao assunto ensinado), logo, todo ensino é, de certa forma, culturalmente elitista. Não é de se espantar que isso “vaze” para o convívio social dos professores com seus pares, que não tenderão a ver com bons olhos quando um companheiro de classe (no sentido de profissão e não de turma escolar) que use uma música de balada, do populacho, de aculturados, como um recurso pedagógico.

Diante de todos esses motivos, pelo jeito, os novos professores de Língua Portuguesa vão ter que continuar a utilizar como recursos didáticos as mesmas canções chatas de sempre… de Noel Rosa, de Caetano Veloso, de Chico Buarque…

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Ai se eu te pego


Parte 1: Uma vez…

Nós estamos na crista da onda. Nós estamos no centro do mundo. Nós somos o novo hype. A nova Irlanda, a nova China, os velhos EUA. A sexta economia do mundo. O primeiro dos BRICS.

Desde pequeno sempre ouvi dizer que o Brasil era o país do futuro. Porém, nunca antes na história da minha vida (que nem é tão longa assim) havia percebido claros indícios de que tal futuro seria, ao menos, mesmo que longínquo, um futuro possível. Agora, os indícios, embora o futuro não tenha deixado de ser longínquo, parecem saltitar aos olhos: lideramos a missão de paz no Haiti; temos a eleição mais moderna do mundo; sediaremos os dois eventos esportivos (a Copa do Mundo e as Olímpiadas) mais importantes da era contemporânea em um espaço de apenas dois anos (a Copa em 2014 e as Olímpiadas em 2016) – com que estrutura, não se sabe, mas para que ser tão desmancha prazeres e antipatriótico?); possuímos um dos escritores mais populares do mundo (Paulo Coelho); somos parada obrigatória para as turnês mundiais dos principais nomes da música pop; acabamos de nos tornar a sexta maior economia do mundo…

Com tudo isso acontecendo, nossa língua (bom, na verdade, a língua de Portugal…) acabou por se tornar, à imagem e semelhança de nossa nação, uma língua emergente. A popularidade da última flor do Lácio cresce a passos largos em sincronia com a popularidade do país. Só para se ter uma ideia, nos cursos universitários dos EUA o ensino de português cresceu 10% de 2006 para cá…

No campo cultural, nós que sempre importamos os hits norte-americanos e britânicos, emplcamaos o “Ai se eu te pego” de Michel Teló, que, no momento, toca mais do que Adele e Coldplay nas paradas europeias. “Ai se eu te pego” atingiu o sucesso sendo cantada em português (língua que foi considerada pelo crítico de música do New York Times – em seu comentário a respeito do show da cantora mais famosa do Brasil, Ivete Sangalo, no Madison Square Garden em Nova York – como uma língua estranha e principal razão pela qual, mesmo possuindo uma cultura tão variada, exportemos tão poucos artistas). Claro, a versão em inglês, inevitavelmente, apareceu. Mas, essa última foi muito mais consequência do que causa do sucesso da canção pop-sertaneja.

Com o aumento do ensino de português mundo afora e com o sucesso de um artista que, segundo a revista semanal Época, representa a cultura popular brasileira – para a alegria de alguns e o desespero de muitos -, é de se imaginar que “Ai se eu te pego” será usada em nove entre dez salas de aula de português como língua estrangeira como ferramenta didática para o ensino de nove entre dez tópicos diferentes. Porém, acredito que tal expectativa não se realizará e o hit das pistas acabará por não se tornar um hit didático. Por quê? A meu ver, ao menos cinco motivos parecem impossibilitar a utilização do hit do verão “Ai se eu te pego” de Michel Teló para o ensino da língua portuguesa para estrangeiros. Tais motivos serão listados e explicados no próximo (segunda parte) post.

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Boa Noite, Cin… Boa Noite, quem mesmo?

Este post foi escrito com o objetivo de esclarecer a profunda e existencial dúvida de um amigo (que logo passou a ser também minha) expressa simultaneamente por meio de um post no Twitter e de uma atualização de status no Facebook: “Se a bela adormecida é quem dorme, por que o golpe se chama ‘Boa Noite, Cinderela?’”.

Um “Boa Noite, Cinderela” consiste basicamente em incrementar o drink da vítima com uma droga depressora do sistema nervoso central. Como o álcool também deprime o sistema nervoso central, ao ser consumida junto com o drink, a droga acaba por ter seu efeito sedativo aumentado. Esse efeito sedativo aumentado pode chegar a mais de 72 horas e causar amnésia para os eventos ocorridos durante e pouco antes da sedação, o que dificulta a identificação do criminoso por parte da vítima. Com a vítima indefesa, o golpista encontra facilidade para realizar uma série de crimes, sendo os mais comuns deles o assalto e o estupro (o roubo de rins, apesar do que dizem, não é tão comum assim).

Se a principal característica de tal golpe é a sedação da vítima, porque então ele é chamado de “Boa Noite, Cinderela”? A Cinderela não é sedada – na verdade, sai até muito cedo da festa -, não é roubada – nem possui bens para tanto – e nem é abusada – exceto, talvez, por suas tias más. Então, por que o golpe não foi chamado de “Boa Noite, Bela Adormecida” essa última sim poderosamente sedada por magia? Ou, quem sabe, até de forma mais adequada, de “Boa Noite, Branca de Neve” já que sua maça é incrementada com um poderoso sonífero? Seria um erro de denominação? Uma confusão? Uma falta de conhecimento das fábulas infantis? Uma piada com os irmãos Grimm?

Nenhuma das anteriores. O nome do golpe simplesmente não tem origem nos contos de fada.

“Boa Noite, Cinderela” foi o nome de um quadro do Programa Silvio Santos (que nessa época ainda não possuía seu próprio sistema de televisão e trabalhava, quem diria, na TV Globo) que se iniciou na década de 70 e durou até a década seguinte. No quadro em questão três meninas carentes eram levadas ao programa e entrevistadas para ter os seus sonhos realizados por uma noite (uma versão infantil – e noturna – do menos antigo “Dia de Princesa”).

O golpe parece ter absorvido o nome do quadro por meio de uma metonímia irônica (e/ou perversa). Enquanto no show a menina chegava sem nada e ganhava tudo, no golpe, seu exato oposto, a vítima chega com tudo e termina sem nada. Cruel. Mas assim é o mundo. Nem todos os estranhos que se conhece são príncipes ou o Silvio Santos…

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Ano-Novo, Palavra Nova

Há alguns dias tivemos, aqui no Brasil e em todos os lugares que seguem o calendário ocidental, a noite de Réveillon. Agora que estão, ao menos espero, todos, eu inclusive, dela recuperados, podemos refletir um pouco sobre ela. Porém, como neste blog nunca se reflete sobre as coisas, mas sim sobre o nome das coisas, vamos então, na verdade, refletir sobre o nome da fatídica – sempre mais para uns do que para outros – noite.

A palavra Réveillon vem do francês “despertar”. Como não falo francês, admito, não sem certa vergonha, que obtive tal informação na não-muito confiável Wikipedia – coisas da geração pós-enciclopédia Britânica – porém, a exatidão etimológica não é assim tão importante para o desenvolvimento deste que não passa de uma sugestão baseada em argumentos pra lá de subjetivos para que deixemos de utilizar a palavra Réveillon.

Mas, continuando por onde havia começado, a (nem tão confiável) fonte sugere que o nome seria, então, Réveillon, pois todos passariam tal noite “despertos”. O que não faz muito sentido, por não refletir o caráter especial da noite em questão (podemos passar muitas noites despertos, por variados motivos: músicas e luzes repetitivas, monografias, plantões, insônia, etc.) Contudo, como dito anteriormente, a etimologia e sua precisão, não são tão importantes assim para o desenvolvimento deste.

O que seria importante aqui, então? Que tal o mais do que subjetivo “tom” da palavra? Réveillon parece soar démodé (até mais démodé do que “démodé”). Parece ser da mesma leva (ou estirpe) de palavras e expressões francesas como “nouveau riche”, “enchanté”, “c’est la vie”, “pince-nez”, etc. Uma herança mórbida de uma época na qual a elite “muderna” brasileira se cumprimentava pelas ruas aos gritos de “viva a França” (bradados em francês, é claro). Hoje, como os “mudernos” dizem “Hello” e consideram “ne me quite pas” breguissímo, Réveillon soa desnecessário, arcaico, antigo, velho, cheio de “décandence sans élégance”.

Além de todo o “tom”, a palavra ainda é de complicada grafia (os dois “l” e o acento em um lugar estranho, o que, na prática, força todos a buscar no google antes de postar no twitter) e soa não agradável aos ouvidos de nosso povo lusófono. Uma festa tão popular, tão geral, não pode receber um nome que em tudo (pronúncia, escrita, origem) seja tão elitista. Seria melhor, em última instância, popularizar sua grafia e pronúncia para “reveião”.

Mas, talvez, não precisemos chegar a tanto. Basta deixar que a elegância da solução mais simples e cada vez mais popular se aplique. Basta que usemos “Ano-Novo” ou “Noite de Ano-Novo”. Com hífen. Pois, é justamente o hífen, que reforça que o termo é um “conceito”, um termo único e especial, e logo, reforça a diferença de tal conceito com o do novo ano que se inicia ou de qualquer noite do ano novo que se inicia (um ano, no Brasil, talvez possa ser considerado “novo” até o passar da quarta-feira de cinzas). Além disso, o termo (do jeito que está grafado com hífen) está dicionarizado (pelo menos no meu Howaiss) e tem até plural (anos-novos). Por fim, convém ressaltar que convém caprichar na pronúncia (especialmente se for utilizar a forma plural) de modo a evitar mal-entendidos e/ou trocadilhos desagradáveis.

PS: Apenas depois da festa de Réveillon e deste artigo que descobri que existem várias festas pelo Brasil afora com o nome de Réveillon Enchanté…

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A unificação da grafia

Em 25 de julho de 2004 foi firmado o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que nessa época já não era tão novo, uma vez que essa era na verdade a segunda ratificação de um acordo ratificado pela primeira vez em 1998, escrito em 1990 e que nunca tinha chegado a ser verdadeiramente “acordado” e, portanto, nunca fora implantado. Porém, dessa vez, em 2004, o foi.
A cerimônia oficial foi realizada em Lisboa, Portugal, e teve a presença de representantes dos seguintes países, falantes de português, que passaram a fazer parte do acordo: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Tal acordo tem como objetivo unificar a grafia oficial, mas não a pronúncia, de todos os países falantes de português. Na verdade, embora assinado por vários países, tem como principal objetivo estabelecer uma grafia única entre o português europeu e o brasileiro (já que Portugal, ao colonizar os outros países, já tinha mais experiência e foi mais eficiente na fixação da língua que é praticamente a mesma).

Além da inveja do espanhol (falado em mais países e já contando com uma grafia oficial unificada), o principal motivo desse acordo parece ter sido facilitar a importação/exportação de documentos, livros e outros materiais culturais. O que evitaria que livros brasileiros tivessem que ser adaptados antes de serem lançados em Portugal e vice-versa. O que, talvez, seja um grande exagero, já que nós, brasileiros, somos capazes de entender perfeitamente um texto em português europeu (é claro, pode soar antiquado – como um papo do seu bisavô em um jogo de bocha – ou engraçado – como o seu Manuel da Padaria, mas que pode ser entendido, pode…).

O acordo foi muito criticado pelas bandas de cá (por ser desnecessário, por não ser realmente “unificador” dado que algumas grafias duplas – fenómeno/fenômeno, aritmética/arimética, amnistia/anistia – continuarão a existir), mas foi ainda mais criticado pelas bandas de lá (mesmo Portugal tendo sido o primeiro país a assinar o acordo), com direito a protestos públicos, manifestações de intelectuais, etc. Não se deve acreditar, contudo, que os portugueses criticaram mais o acordo por serem mais engajados que os brasileiros, mas sim porque as mudanças serão muito maiores do lado de lá. Como o acordo, quando se propôs a eliminar as grafias múltiplas, baseou-se no critério da simplicidade, a grande maioria das grafias que prevaleceram eram aquelas do português brasileiro (porque, nós, talvez guiados por nossa malandragem, já havíamos aplicado tal critério há muito tempo). Mesmo tendo muito mais tempo do que os brasileiros se adaptarem (3 anos a mais), o que é justificável devido ao maior número de “mudanças” ortográficas pelas quais terão que passar, os portugueses continuam reclamando e protestando.
Não consigo deixar de ligar toda essa resistência de alguns portugueses ao acordo à mentalidade colonial. Talvez, para muitos, no fundo o novo acordo ortográfico surja no imaginário como o índio ensinando o jesuíta a escrever. Ao contrário dos ensinamentos zen, nem todos os mestres veem beleza em serem superados pelos seus discípulos. Nem todos os professores, apesar do discurso politicamente correto, acham valoroso “aprender cada vez mais” com seus alunos. Mesmo que a questão não chegue nem a ser semântica, sendo apenas gráfica ou melhor, ortográfica.

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@ (ou: o novo peso da arroba)


Parte 2: A, E, I, O, U, @

Como dito no texto anterior, a arroba (@), antes exclusivamente utilizada como unidade de medida rural, passou a ser quase tão utilizada quanto as letras no e-mail e no twitter. Porém, muitas pessoas desejam torná-la ainda mais utilizada, desejam torna-la literalmente uma letra. Essas pessoas sugerem que a arroba seja transformada em uma vogal. Contudo, porque a língua portuguesa (e a espanhola) precisaria de uma sexta vogal?

Tal necessidade se daria porque nossa língua seria machista. Como não existe o gênero neutro na gramática portuguesa, sempre que se faz referência a um grupo de gênero misto deve-se usar o gênero masculino. Independente de sua composição. Logo, mesmo que uma turma de escola seja formada por 30 meninas e 2 meninos, deve-se referir a tal grupo como “alunos”. Segundo os defensores dessa ideia, tal regra seria a expressão dos anos de domínio do patriarcado. Mais do que uma expressão do machismo, a regra gramatical em questão ajudaria a difundir uma suposta superioridade do gênero masculino em relação ao feminino, do homem em relação à mulher.

Segundo tal pensamento a resolução desse problema estaria em grafar palavras com uma vogal neutra (@). Assim, ficariam reservados o “a” para o feminino, o “o” para o masculino e a “@” para o neutro. Logo, um comunicado para os estudantes da UFLA seria iniciado assim:

“Prezad@s Companheir@s do FGEI”

Tal corrente está mais difundida do que parece (especialmente em meios ligados ao movimento feminista). Seus partidários já possuem até uma pronúncia determinada para tal vogal e, possuem até (pasmem!) opositores dentro do próprio movimento feminista que consideram a arroba (@) machista, já que a letra “a” seria emoldurada por um “o”. Dando a ideia de que o feminino seria moldado pelo masculino (e, logo, as mulheres moldadas pelo patriarcado).

A necessidade de uma sexta vogal parece estar fundamentada em uma identificação entre gênero linguístico e gênero extralinguístico (não se trata aqui de discutir se o conceito de gênero se aplica a um construto sociocultural ou a um fato biológico. O argumento continua válido independentemente da concepção adotada). Porém, tal identificação não se dá de forma necessária. Uma série de palavras femininas (a vítima, a testemunha, a criança, etc) podem ser usadas para denotar seres humanos do sexo masculino. Além disso, se o “gênero neutro” parece ser a solução, porque os mesmos grupos lutam tanto em criar versões “femininas” de palavras que podem ser usadas para denotar pessoas de ambos os sexos (presidente, estudante, etc).

Além disso, tal proposta também dá como necessária a identificação da vogal “a” com o feminino e da vogal “o” com o masculino. Porém, mais uma vez, não se pode dizer que tal identificação é existente. Pois, uma série de palavras terminadas em “a” pertencem ao gênero (linguístico) masculino (o dentista, o sofá, etc) e várias palavras de gênero feminino são terminadas em “o” (todas as palavras terminadas em “ão”, por exemplo). Não existe, portanto, nenhum valor intrínseco que determine a masculinidade da letra “o” ou a feminilidade da letra “a”. Se tal identificação não existe nem na relação “terminação-gênero linguístico” que dirá na relação “terminação-gênero extralinguístico” (aliás, se assim fosse, não seria a melhor vogal para designar o gênero masculino o “i?”).

Mais um exagero de tal corrente é evidenciado em sua visão da sua relação “sociedade – linguagem”. É claro que a sociedade influencia a linguagem (é quem não só fala, como cria, a linguagem, afinal) e vice-versa. Mas, de forma alguma, essa relação se dá de forma causal como defendem. Ou seja, a mulher não é oprimida pelo fato do gênero masculino ser linguisticamente predominante no português (ou não haveria machismo em países que falam línguas onde existe o gênero neutro – Alemanha – ou não existe gênero – EUA). E nem a transformação da gramática resulta em benefício direto para a igualdade de gêneros, ou, não haveria machismo na Itália onde o pronome da terceira pessoa do feminino, “lei”, é idêntico ao pronome de tratamento formal “Lei”. (aliás, Mussolini tentou mudar essa forma pronominal alegando que diminuía a masculinidade do homem italiano…).

Sim, as mulheres conquistaram muito nos últimos tempos graças ao movimento feminista. Sim, ainda há muito que fazer. Só para se ter uma ideia do quanto é preciso avançar, no Brasil, por exemplo, a cada cinco minutos duas mulheres são agredidas por seus cônjuges ou companheiros. Essa situação precisa mudar. Porém, não será uma arroba a fazê-lo.

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“@” (ou: O novo peso da arroba)


Parte 1: A arroba é pop!

A arroba (@) é um sinal estranho. Há uns vinte anos atrás ninguém sabia exatamente como se chamava ou o que indicava esse “a com uma bolinha” que ficava em cima do “2” na máquina de escrever, e um pouco mais tarde, nos teclados. (Prova de tal fato é que ninguém nascido antes dos anos 90 consegue “manuscrevê-la” com naturalidade, sem certa artificialidade ou incômodo). Porém com o surgimento da Internet, a arroba veio a se tornar popular e indispensável em todo o mundo. Ainda que não se saiba muito bem o que ela significa.

Em português (e espanhol, logo, em toda a península Ibérica e, por motivos de colonização, em toda a América latina) o símbolo “@” sempre foi lido como arroba. Arroba é uma unidade de medida, que por mais estranho que isso pareça, variou de unidade não só em relação à outra unidade de medida, mas também em relação à coisa medida (ou seja, antigamente, uma arroba de vinho era equivalente a 16,133 litros; enquanto uma arroba de azeite era equivalente a 12,563 litros. Provavelmente, tal diferença, se deva a diferença de densidade entre os dois líquidos). Porém, a arroba quase não era usada, e antes da Internet, as pessoas só ouviam falar dela no programa Globo Rural que nos informava (e ainda informa) diariamente o preço da arroba do boi gordo (aliás, a arroba métrica, foi fixada como sendo de 15Kg).

Contudo, nos países de língua inglesa, onde o símbolo – provavelmente, e o e-mail, com certeza, foi inventado – a arroba tem outro significado. Embora em tais países também tivesse função comercial, essa não era a de unidade de peso de transações e sim de valor unitário. Por exemplo: “R$14 @ 2 reais = 28 reais”. Ou seja, 14 maçãs ao preço de 2 reais cada uma igual a um total de 28 reais. Como a expressão em inglês original era: “at the rate of” (“a taxa de”) o sinal passou a ser chamado de “at sign” (“sinal a/em”).

Claro, existem registros ainda mais antigos da utilização desse sinal. Alguns remontam a renascença ou até mesmo a cópias da bíblia. Alguns dizem que é a abreviação da preposição latina ad (relacionada à preposição portuguesa “a” e a inglesa “at”) outros dizem que seria a abreviação da preposição grega “ava” (tendo o mesmo sentido da preposição latina).

Embora não se possa ter certeza de onde o sinal @ foi inventado, nós sabemos onde foi o e-mail foi inventado. Nos EUA, um país de língua inglesa. E por que motivo a arroba foi escolhida para uso no e-mail eletrônico? Simples, como dizemos acima, o sinal “@” é lido como “at sign” ou como “at” (que é um preposição, às vezes traduzida como a e às vezes como em). Logo, o email carlos@yahoo.com.br (significa: Carlos no Yahoo, um endereço comercial, do Brasil).

Claro, tal leitura só pode ser feita em países de língua inglesa. Pois, cada língua se refere ao símbolo “@” de um jeito: os italianos o chamam de “caracol”, os russos de “cachorro”, os finlandeses de “miau-miau” e os suecos o chamam de algo como “a com tromba” (de longe o melhor).

Então, com o surgimento do e-mail a arroba (@) que antes estava restrita ao Globo Rural ganhou popularidade e passou a chamar a atenção de todos, deixou de ser um símbolo comercial da língua inglesa para se tornar um caractere comum em todo o mundo. Contudo, alguns falantes de espanhol e de português, parecem ter descoberto um novo uso para a arroba. Tais falantes propõem que a arroba deixe de ser um caractere especial e seja “promovida” ao cargo de sexta vogal. O uso, a pronúncia e a necessidade (ou não) de tal sexta vogal serão discutidos na segunda parte deste post.

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Prato do dia: Traíra

A traíra é um dos peixes de água doce mais comuns no Brasil, encontrada em quase todos os rios e lagos. Na verdade, a traíra é capaz de sobreviver em qualquer córrego ou fio de água. A traíra é um peixe carnívoro com preferência por lugares escuros, escondidos e de vegetação abundante. Pedaços de madeira, troncos caídos, lixo, todas essas coisas constituem ótimos esconderijos para as traíras.
Além de sua furtividade, a traíra é um peixe voraz, canibal e territorialista, o que, devido aos pequenos corpos d’água nos quais habita, o transforma em um perigoso predador e também em um peixe de difícil manuseio durante a pesca.

A traíra devido a sua imensa presença em quase todos os corpos d’agua e a sua carne saborosa é muito consumida pelos seres humanos. Porém, precisa passar por preparos especiais, pois os espinhos da traíra são menores do que os da maioria dos peixes o que torna difícil a sua identificação e retirada. Na verdade, tais espinhos são tão miúdos, que o processo mais popular consiste em bater a traíra até que seus pequenos espinhos estejam moídos e o peixe possa ser consumido praticamente como se nunca tivesse possuído tal estrutura cálcica.

Com base em todas as características citadas acima, é fácil entender porque a palavra que designa o peixe “traíra” passou a expressar traídor (além da vantagem já natural da semelhança fonética).

Um peixe que adora se esconder, é voraz, territorialista e que ataca a própria espécie é a metáfora perfeita para um traidor. Guardada as devidas proporções, o modos operandi e o ímpeto dos dois seres parecem idênticos. Além disso, mesmo depois de morta, ao ser consumida, se não se tomar cuidado, a traíra é perigosa, pois seus espinhos podem passar despercebidos e causar um engasgamento. Da mesma forma de que os planos e artimanhas do traidor podem surpreender uma vítima mesmo quando o mesmo não está presente ou não parece (mais) ser uma ameaça.

Não é à toa, então, que a gíria popularizou-se e deixou a muito tempo de ser coisa de conversa de pescador. Claro, que todas essas características são naturais à traíra, foi a forma pela qual ela evoluiu, é o papel que a natureza lhe encontrou, é o que lhe permite viver até mesmo nos menores cursos d’água onde a existência de qualquer tipo de peixe parece improvável. Porém, nos grandes lagos e rios da sociedade humana tais características são desnecessárias. Mais do que desnecessárias são desprezíveis e, porque não dizer, prejudiciais a evolução de toda a espécie.

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Amigo da Onça

Algo pra lá de curioso aconteceu com a origem da expressão Amigo da Onça, algo quase tão curioso quanto o comportamento dos indivíduos que ela denota. A expressão teve origem no nome do personagem de uma tira que foi publicada na extinta revista O Cruzeiro de 1943 a 1972 (a partir de 1962, não mais traçada pelas mãos do criador, Péricles de Andrade Maranhão, falecido no ano em questão). A expressão foi adicionada ao vocabulário popular e sobreviveu ao personagem. Mais do que isso, muitos a utilizam sem nem jamais ter conhecimento da existência do personagem que lhe deu origem. O personagem, por sua vez, teve sua origem em uma piada da época:

Dois caçadores conversam em seu acampamento:
— O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse na sua frente?
— Ora, dava um tiro nela.
— Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo?
— Bom, então eu matava ela com meu facão.
— E se você estivesse sem o facão?
— Apanhava um pedaço de pau.
— E se não tivesse nenhum pedaço de pau?
— Subiria na árvore mais próxima!
— E se não tivesse nenhuma árvore?
— Sairia correndo.
— E se você estivesse paralisado pelo medo?
Então, o outro, já irritado, retruca:
— Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?

Eu não era nascido na década de 60, mas acredito que muitos daqueles que liam as tiras do amigo da onça não faziam ideia da origem do nome do personagem (e a pesquisa podia ser demorada uma vez que o google não existia), do mesmo jeito que hoje muitos usam a expressão sem conhecer o personagem. O personagem sobreviveu a piada, a expressão sobreviveu ao personagem. Mas, afinal, o que é o amigo da onça?

Amigo da onça, o genérico e não o personagem, é aquele amigo que te coloca em uma fria, em uma enrascada, enfim, usando uma expressão para explicar uma expressão, em uma saia justa.

Tome cuidado, pois o amigo da onça nem sempre é um traidor. Há aqueles amigos da onça que agem como tal por inocência, desatenção ou mesmo para fazer aquela saudável brincadeira que se costuma chamar de zoação.

Enfim, é preciso tomar cuidado para não confundir os conceitos: nem todo amigo da onça é traíra, mas todo traíra é amigo da onça.

Quanto a origem e o sentido do traíra, como bom amigo da onça, deixarei para o próximo post.

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