@ (ou: o novo peso da arroba)

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Parte 2: A, E, I, O, U, @

Como dito no texto anterior, a arroba (@), antes exclusivamente utilizada como unidade de medida rural, passou a ser quase tão utilizada quanto as letras no e-mail e no twitter. Porém, muitas pessoas desejam torná-la ainda mais utilizada, desejam torna-la literalmente uma letra. Essas pessoas sugerem que a arroba seja transformada em uma vogal. Contudo, porque a língua portuguesa (e a espanhola) precisaria de uma sexta vogal?

 

Tal necessidade se daria porque nossa língua seria machista. Como não existe o gênero neutro na gramática portuguesa, sempre que se faz referência a um grupo de gênero misto deve-se usar o gênero masculino. Independente de sua composição. Logo, mesmo que uma turma de escola seja formada por 30 meninas e 2 meninos, deve-se referir a tal grupo como “alunos”. Segundo os defensores dessa ideia, tal regra seria a expressão dos anos de domínio do patriarcado. Mais do que uma expressão do machismo, a regra gramatical em questão ajudaria a difundir uma suposta superioridade do gênero masculino em relação ao feminino, do homem em relação à mulher.

 

Segundo tal pensamento a resolução desse problema estaria em grafar palavras com uma vogal neutra (@). Assim, ficariam reservados o “a” para o feminino, o “o” para o masculino e a “@” para o neutro. Logo, um comunicado para os estudantes da UFLA seria iniciado assim:

 

[email protected] [email protected] do FGEI”

 

Tal corrente está mais difundida do que parece (especialmente em meios ligados ao movimento feminista). Seus partidários já possuem até uma pronúncia determinada para tal vogal e, possuem até (pasmem!) opositores dentro do próprio movimento feminista que consideram a arroba (@) machista, já que a letra “a” seria emoldurada por um “o”. Dando a ideia de que o feminino seria moldado pelo masculino (e, logo, as mulheres moldadas pelo patriarcado).

 

A necessidade de uma sexta vogal parece estar fundamentada em uma identificação entre gênero linguístico e gênero extralinguístico (não se trata aqui de discutir se o conceito de gênero se aplica a um construto sociocultural ou a um fato biológico. O argumento continua válido independentemente da concepção adotada). Porém, tal identificação não se dá de forma necessária. Uma série de palavras femininas (a vítima, a testemunha, a criança, etc) podem ser usadas para denotar seres humanos do sexo masculino. Além disso, se o “gênero neutro” parece ser a solução, porque os mesmos grupos lutam tanto em criar versões “femininas” de palavras que podem ser usadas para denotar pessoas de ambos os sexos (presidente, estudante, etc).

 

Além disso, tal proposta também dá como necessária a identificação da vogal “a” com o feminino e da vogal “o” com o masculino. Porém, mais uma vez, não se pode dizer que tal identificação é existente. Pois, uma série de palavras terminadas em “a” pertencem ao gênero (linguístico) masculino (o dentista, o sofá, etc) e várias palavras de gênero feminino são terminadas em “o” (todas as palavras terminadas em “ão”, por exemplo). Não existe, portanto, nenhum valor intrínseco que determine a masculinidade da letra “o” ou a feminilidade da letra “a”. Se tal identificação não existe nem na relação “terminação-gênero linguístico” que dirá na relação “terminação-gênero extralinguístico” (aliás, se assim fosse, não seria a melhor vogal para designar o gênero masculino o “i?”).

 

Mais um exagero de tal corrente é evidenciado em sua visão da sua relação “sociedade – linguagem”. É claro que a sociedade influencia a linguagem (é quem não só fala, como cria, a linguagem, afinal) e vice-versa. Mas, de forma alguma, essa relação se dá de forma causal como defendem. Ou seja, a mulher não é oprimida pelo fato do gênero masculino ser linguisticamente predominante no português (ou não haveria machismo em países que falam línguas onde existe o gênero neutro – Alemanha – ou não existe gênero – EUA). E nem a transformação da gramática resulta em benefício direto para a igualdade de gêneros, ou, não haveria machismo na Itália onde o pronome da terceira pessoa do feminino, “lei”, é idêntico ao pronome de tratamento formal “Lei”. (aliás, Mussolini tentou mudar essa forma pronominal alegando que diminuía a masculinidade do homem italiano…).

 

Sim, as mulheres conquistaram muito nos últimos tempos graças ao movimento feminista. Sim, ainda há muito que fazer. Só para se ter uma ideia do quanto é preciso avançar, no Brasil, por exemplo, a cada cinco minutos duas mulheres são agredidas por seus cônjuges ou companheiros. Essa situação precisa mudar. Porém, não será uma arroba a fazê-lo.

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