Quando a Argentina Pensou em Adotar o Francês Como Língua Oficial

Esse artigo é um oferecimento de Olá Argentina, a revista digital sobre o país vizinho, em língua portuguesa.

Antes de prosseguirmos, vamos clarificar algumas datas:

Em 1810 o então Vice-reinado do Rio da Prata inicia o seu processo de independência da coroa espanhola, o que ficou conhecida como Revolução de Maio.

Em 1816 se torna independente (unilateralmente) e surge as Províncias Unidas do Rio da Prata, semente do que seria a Argentina de hoje.

Em 1837, Juan Bautista Alberdi, pai da primeira constituição argentina, imaginou a possibilidade de os argentinos adotassem o francês como língua oficial, no que ele descreveu como uma “emancipação linguística” necessária com o fim de romper por completo os laços coloniais e  em uma clara reação anti-espanhola.

Eram tempos em que os intelectuais filhos de espanhóis nascidos no continente americano, debatiam se as particularidades na forma de falar e escrever que o espanhol havia adotado na América do Sul – e no Rio da Prata em particular – eram desvios que precisavam ser corrigidos ou a expressão do surgimento de uma “língua nacional” diferente da forma que se falava na Espanha.

Alberdi, claramente, optou pelo segundo. A Espanha representava para ele o passado colonial do qual naquele momento ele viu apenas pontos negativos, enquanto a França era o futuro e o progresso. A Espanha foi a colônia, a França já era república e um espelho para o futuro.

Juntamente com outros intelectuais, Alberdi tinha uma forte influência do pensamento e cultura franceses. Não era valorizado o patrimônio colonial ou raízes indígenas, como outros pensadores argentinos viriam expressar mais tarde na história do país.

Para esse grupo de intelectuais o qual fazia parte Alberdi, a Revolução de Maio havia libertado a nação, quebrando as cadeias que a ligavam a uma metrópole “decadente”.

No ano de 1838, Alberdi publica um artigo com um título significativo, “Emancipação da linguagem”, no qual ele afirma que a linguagem acompanha a revolução, por isso é natural que adote uma estrutura local americana. Responde às críticas dirigidas à “francesização” da linguagem de alguns jovens refere-se, obviamente, à elite social e cultural.

“Para Alberdi, a linguagem é uma face do pensamento, então aperfeiçoar uma linguagem é aperfeiçoar o pensamento”, diz Fernando Albón, no estudo preliminar da antologia La querella de la lengua en Argentina (Ediciones Biblioteca Nacional, 2013). “Imitar uma linguagem perfeita é imitar um pensamento perfeito, é adquirir lógica, ordem, clareza, é aperfeiçoar nosso próprio pensamento“, escreveu o pai da constituição argentina.

Juan Bautista Alberdi dizia que a língua é a face dos nossos pensamentos, e que a Argentina independente não pensava mais como os espanhóis, (segundo ele de forma arcaica)  e sim com um pensamento americano e republicano como o pensamento francês, a língua francesa deveria ser adotada como meio de expressar essa nova maneira de pensar.

O pai da constituição afirma em seu texto a existência de uma “língua argentina” que teve que ser emancipada, como o país havia feito antes: “A língua argentina não é, então, a língua espanhola: é a filha da língua espanhola, como a nação, a Argentina é filha da nação espanhola, sem ser a nação espanhola. (…) Nossa língua aspira a uma emancipação, porque é apenas uma faceta da emancipação nacional, que não é completa apenas pela emancipação política “.

Porém esse desejo de adotar o francês, por enquanto, ficou por aí, nesses pensamentos expressados em um texto.

Anos depois, a controvérsia retornou, desta vez da mão de um francês que morava na Argentina, Lucien Abeille, que, surpreso ao descobrir tantas palavras e expressões francesas na variante do espanhol falada no do Rio da Prata, fez um estudo filológico e publicou, em 1900, o livro Língua Nacional dos Argentinos.

Abeille não só defende a tese de uma “língua argentina”, mas também traça nela as influências dos franceses, depois mais notáveis que outras (o peso da grande imigração italiana ainda não era sentido com tanta força). Ele até publicou na França uma edição totalmente bilíngue de seu livro para transmitir seu entusiasmo aos seus compatriotas.

Durante muito tempo, a elite argentina preferiu o francês como língua habitual no seu dia a dia, em detrimento a outras línguas, mesmo o país no seu momento de maior esplendor, tendo fortes ligações com a Inglaterra.

Argentina, na francofonia

Tudo o que foi dito explica a presença da Argentina na Organização Internacional da Francofonia, que para uma pessoa desavisada pode parecer caprichosa. Por outro lado, a Argentina não é o primeiro país latino-americano a integrar a Francofonia.

Além do Haiti, por motivos óbvios, também  faz parte como país observador a República Dominicana, México, Costa Rica e Uruguai.

Um fato que vale lembrar a pena é que  quando a ONU foi criada, há mais de meio século atrás, foi graças ao voto dos países latino-americanos que os franceses obtiveram o status de língua oficial da organização, evitando o monopólio do inglês e contribuindo para o multilateralismo.

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Imagem: Wikipedia

A Aliança Francesa de Buenos Aires foi fundada em 1893. É uma das mais antigas e possui muitos ramos no interior do país. Nos últimos anos, após um período de marginalização causado pela expansão do inglês, o interesse pelo estudo do francês voltou.

Pelas ruas de Buenos Aires, além da notória arquitetura francesa, há muitos nomes como Boulogne Sur Mer e Angel Hubac.

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Imagem: Wikipedia

Nas escolas do país, estuda-se como idiomas estrangeiros o inglês obrigatório e uma segunda língua que os alunos têm a opção de escolher entre francês, italiano e português, sendo que a língua de Camões quase nunca é eleita.

 

 

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